Analfabetismo, “iletramento” e questões eleitorais

(Publicação de 13 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Mexe aqui e ali, acabei encontrando alguns textos da época de faculdade. É curioso ver como construímos um pensamento. Este aqui foi feito para a especialização da UFC, disciplina da Professora Marcia Vidal.

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quadro um

Departamento de comunicação social/Universidade Federal do Ceará – UFC

Especialização em teoria da comunicação e da imagem

Disciplina: leituras transdiciplinares em comunicação

Professor(a): Márcia Vidal Nunes

Aluna: Marina Valente Marins Camara – turma C

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– Analfabetismo, “iletramento” e questões eleitorais –

Tabela 4 – Taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou    mais – 1996/2001
Unidade Geográfica Ano
1996                       1998                                    2001
Brasil

Norte

Nordeste

Sudeste

Sul

Centro-Oeste

14,7                          13,8                                    12,4

12,4                          12,6                                    11,2

28,7                           27,5                                   24,3

8,7                               8,1                                     7,5

8,9                               8,1                                     7,1

11,6                             11,1                                   10,2

Fonte: IBGE, Pnads de 1996, 1998 e 2001.

O presente trabalho tem o intuito de analisar o analfabetismo e o não “letramento” (Uma questão social, fruto do processo contínuo de exclusão) e seu desenvolvimento na construção da política e das campanhas eleitorais.

A escolha do objeto trás uma série de possíveis reflexões dado o número significativo de analfabetos no país, e sua dimensão geográfica, como podemos perceber no seguinte gráfico[1]:

A  parcela da população que desconhece o código escrito é considerável, e se considerarmos a alfabetização além do conhecimento do código, ou seja, se incluíssemos nas estatísticas pessoas iletradas ( que conhecem o código, mas não o compreendem) os números seriam ainda mais alarmantes.

E o que significaria letramento? Em 1998, Magda Soares[2],  investigou que o termo vinha do inglês: literacy. E que a partir da década de 80 começou a ser utilizada no Brasil. Soares definiu então que:

“(…) o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita”.

O que chamamos de letramento é, portanto, uma capacidade de compreender e interpretar o mundo. Patativa do Assaré, por exemplo, era como muitos ressaltam, semianalfabeto, pois não compreendia com precisão os códigos linguísticos da norma culta, mas ao mesmo tempo era letrado, pois conseguia compreender o mundo a sua volta de tal forma que os traduzia em poesias perfeitas. Então é possível ser analfabeto e ser letrado, mas também é possível ser alfabetizado e não letrado. Munir Fasher[3], ao teorizar sobre as campanhas de alfabetização na palestina no dá a seguinte contribuição ao falar de sua mãe:

“No sentido descrito, sinto que minha mãe “analfabeta” era mais livre do que eu. Ela trilhou o sue caminho na vida a palmilhá-lo, e não por meio de treinamento nem pelo ensino de conhecimento fragmentado, isolado da vida. Ela aprendeu, em vez de ser ensinada. Aprendeu observando, fazendo, contando e produzindo. Criou seu próprio e construiu sua compreensão. Uma grande diferença entre nós era que, quando eu precisava descobrir o significado de uma palavra, deveria procurá-lo no dicionário, na enciclopédia ou em algum outro livro. Ela, ao contrário, procurava os significados com base na sua experiência de vida.

É importante ressaltar que no caso especifico, ela também moldava interpretações de mundo que variavam com suas vivencias, tornando como descreve o autor em espectadora, desta forma nada impede que em determinados momentos esteja envolta num misto de  necessidade e desejo, resultante da experimentação de um mundo concreto.

O grande problema é que fica fácil quantificar o numero de analfabetos de um país através de dados estatísticos, mas quantificar os iletrados seria possível? No Brasil, muitos dados semelhantes foram gerados como, por exemplo, a tabela abaixo que trás dados de analfabetismo funcional[4]:

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Ou ainda[5]:

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Mas tais dados, não refletem o perfil do letramento, haja vista que existem aqueles que completaram seus estudos, mas não conseguem de forma alguma construir um pensamento crítico ou uma leitura maior de mundo, é o caso do exemplo a seguir[6]:

“Candidaturas são impugnadas após teste de alfabetização

O juiz eleitoral de Itapetininga, Jairo Sampaio Incane Filho, 38, impugnou 20 dos 80 candidatos a prefeito e vereador das cidades de Itapetininga, Sarapuí e Alambari, na região de Sorocaba (87 km a oeste de São Paulo).

A impugnação foi motivada pelo fato de os candidatos terem sido reprovados em um teste de alfabetização realizado pelo juiz, no Fórum de Itapetininga.

Incane Filho disse que fez o texto com base na exigência contida na Lei Complementar nº 64/90, de 1992, do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que proíbe analfabetos de serem candidatos a cargos eletivos.

O juiz afirmou que convocou os 80 candidatos que disseram ter o 1º grau completo e demonstraram dificuldades no preenchimento dos documentos para o registro de suas candidaturas.

Os testes com os candidatos foram feitos individualmente. Seus nomes são mantidos em sigilo. “Pedi a todos que lessem e interpretassem um texto de um jornal infantil. Em seguida, pedi que cada um redigisse um texto expondo sua lógica”, disse.

Segundo Incane Filho, erros gramaticais não foram levados em conta. “Apenas observei se o candidato tem condições de entender um texto, pois uma vez eleito, ele vai ter de trabalhar com leis e documentos A assessoria de imprensa do TRE informou que o tribunal transmitiu uma recomendação aos juízes para que “em caso de dúvida”, façam “um teste de alfabetização” nos candidatos.Baseado numa lei que “proíbe analfabetos de serem candidatos a cargos eletivos”, o juiz submeteu candidatos a prefeito e a vereador a “um teste de alfabetização”.

O interessante, é que o TRE revogou a decisão do juiz entendendo que os candidatos eram alfabetizados. Na verdade eles o eram, mas também eram iletrados.

Se, estamos falando de uma parcela da população que é analfabeta e, portanto desconhece os códigos e de uma parcela da população não letrada e que, portanto desconhece os significados, estamos falando de um grave problema na relação dos destes com o alfabetismo político e a política no país. Essa relação, portanto, modifica o fazer político e a propaganda eleitoral.

Para aqueles que são analfabetos e iletrados, podemos considerar as vantagens e desvantagens de se andar no mundo moderno. O não conhecimento do código e os poucos rudimentos de letramento que grande parcela da população possuí, expõe questões como: O que a propaganda e a comunicação de massas pensa essa parcela? Como são as estratégias pensadas? Como lidar com este mercado?

O apelo às questões concretas é exposto no discurso, para que este tenha eficácia. O vivido tem supremacia ao teórico, pois antes de idealizar regras e procurar referências na teoria, busca – se no exemplo e na vivência individual para se construir a vida e um discurso.

Sabendo disso temos inúmeros exemplos de  políticos que se utilizam deste  aspecto para a construção de suas campanhas, um exemplo relatado por  Julia Miranda[7] foi a campanha de governador do Piauí (em 1994 e a reeleição em 1998) de Francisco de Assis Moraes Souza o “Mão Santa”.

O candidato percebeu o cansaço da população dos políticos que vinham de fora como Hugo Napoleão, natural do Rio de Janeiro e outros que vinham do Maranhão. Fez então sua Campanha pautada no sentimento territorial de ser natural  do Piauí.  Um dos discursos construídos na Campanha foi: “um homem e uma mulher se amaram no Piauí, no casaram no Piauí, constituíram uma família cristã no Piauí”, utilizando seu casamento como parte das mensagens de campanha em clara oposição ao outro candidato cuja trajetória familiar foi fora do estado. A estratégia deu certo, mas, não serviu para um esclarecimento político dos eleitores, que votaram pelo sentimento e não pelo esclarecimento político.

A comunidade ou municipalidade é uma determinante na construção da identidade, não no sentido da Polis, mas o conhecimento das tradições políticas, trajetórias dos grupos e fenômenos políticos. A mitologia eleitoral é um terreno fértil para a construção do imaginário e há casos onde a definição política ocorre desde muito cedo nas cidades do nordeste.

Numa campanha eleitoral, então são expostas questões concretas que são obras e propostas de campanha priorizando o emprego e soluções individualizadas para cada eleitor e questões subjetivas como honra e a ‘ética’ do candidato (sua religião, família, sexualidade e outras  características que tenham afinidade com o eleitor).

Lidamos então com a construção de mitos. A imagem do candidato reflete uma perfeição não necessariamente correspondente a uma realidade, e que também não significa uma capacidade ética, política e administrativa em relação às necessidades de dada parcela da população, mas que suprem à necessidade da imagem da qual desejaríamos ver refletida em um espelho. Uma imagem normalmente inatingível.

É comum pensarmos que esta parcela da população está a reboque dos setores mais escolarizados ou das elites locais, como fruto da influência do voto de opinião ou da subserviência aos senhores locais. Uma segunda reflexão é que esta seria influenciada pelo movimento de opiniões que seriam advindos da igreja, da insegurança, do conservadorismo ou dos movimentos sociais. De uma forma ou de outra esta camada estaria sendo levada não por vontade própria, mas por vontade dos Alfabetizados.

Porém, nas eleições de 2006 tivemos um fenômeno que a mídia chamou de “fim do efeito pedra no lago”[8] : às camadas populares votaram independentemente das camadas mais escolarizadas da população, a mudança foi fruto da identidade que o presidente Lula criou com esta faixa da população a partir da própria gênese do presidente, o seu comportamento, o vocabulário popular que este usa.

A eficiência dos programas sociais criou um fim na dependência entre eleitores e as oligarquias locais a partir da construção da impessoalidade no serviço público. Os seus programas sociais ocasionados pela informatização, do acesso aos benefícios de credito, a consolidação do serviço público que limitou o  favorecimento das elites que agora usam da terceirização para colocar os ‘seus’ e por último o desgaste das elites tradicionais por conta do receituário neoliberal.

Em síntese este setor que votava de acordo com a vontade de outros, viu atuar de maneira independente nas eleições de 2006, em parte motivado pelos motivos expostos anteriormente, mas, isso não significou de uma escolha eleitoral pautada na construção de um imaginário emocional, temos então neste caso a soma de dois processos que geraram um fato histórico na política brasileira.

Referências Bibliográficas

Política no Brasil; visões de antropólogos. Org. Moacyr Palmeira e César barreira.Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2006.

SOARES Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998.

Revista Brasileira de Educação: n◦ 24,2007- Como Erradicar o Analfabetismo sem erradicar os Analfabetos?, Munir Fasher.

Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

Folha de S.Paulo, São Paulo,19 de julho de 1996

[1] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[2] SOARES Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998.

[3] Revista Brasileira de Educação: n◦ 24,2007- Como Erradicar o Analfabetismo sem erradicar os Analfabetos?, Munir Fasher.

[4] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[5] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[6] Folha de S.Paulo, São Paulo,19 de julho de 1996

[7] Política no Brasil; visões de antropólogos. Org. Moacyr Palmeira e César barreira.Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2006.

[8]

 

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