Quando errar é desumano

(Publicação de 12 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Mexe aqui e ali, acabei encontrando alguns textos da época de faculdade. É curioso ver como construímos um pensamento. Este aqui foi feito em conjunto com a aluna Maeliza Freitas Galvão, para a disciplina da professora Fabiana Moura.

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Estudo sobre erros da imprensa que destroem vidas

Marina Valente Marins Camara/ Maeliza Freitas Galvão

“ dedicamos este trabalho aos nossos professores, que ao longo de nossa trajetória acadêmica ensinaram a nós os duros caminhos da profissão, que eles tenham conseguido fazer de nos profissionais mais justas, mais humanas e mais fortes no caminho moral de um jornalista”

 Este trabalho visa à análise do papel da imprensa na cobertura jornalística, em específico nos casos de denuncia não comprovada sobre indivíduos, sendo este figura publica ou não. Tendo como objetivo perceber, se existe ou não, um problema moral jornalístico na pesquisa, seleção e divulgação destas notícias.

Para desenvolver este trabalho foram utilizadas matérias de jornais e revistas, análises sobre o comportamento da mídia e livros sobre comunicação e ética.

Durante a realização deste trabalho, pôde-se perceber que a imparcialidade jornalística encontra-se cada vez mais comprometida em função da pressa ao divulgar furos ou até mesmo em função da má apuração ou da divulgação de noticias vindas de fontes não confiáveis. Pode-se então concluir que a imprensa brasileira tem ferido sistematicamente pessoas, famílias e destruindo vidas, e que é urgente a implementação de sistemas que impeçam ações de má fé por parte dela. Ações como a implementação do Conselho Nacional de Jornalismo.
Palavras-chave: Imprensa. denuncia. imparcialidade. má fé. Conselho.

1.Metodologia

Para  concluir este trabalho foi necessário delimitar um foco de noticias que após estudo do caso foram classifica na literatura especifica como exemplos de distorção jornalística, para tanto a análise encontra-se  nos exemplos ocorridos dentro do Estado do Ceará, nos jornais, como principio para o estudo.

A escolha deste foco é justificada pelo maior acesso aos meios locais bem como pela proximidade afetiva do publico leitor. Mas não se prende  somente neste espaço, pois a alguns casos de dimensão nacional foram tão marcantes que não poderiam deixar de ser citados, como o famoso “caso escola base” e o caso Ibsen Pinheiro”.

Outro fator de  importância a este trabalho é o entendimento do papel moral da imprensa, e os fatores que levam a distorção, seja ela deliberada ou inadvertida. E o efeito que esta distorção nas pessoas que foram atingidas pelas falsas acusações.

Para finalizar, este trabalho busca soluções para amenizar esse quadro de distorções, de forma a garantir que a população possa ter na imprensa uma aliada, e que o leitor possa confiar nas noticias que lhe são passadas através destes veículos.

2.Introdução

Escrito no código de ética da profissão de jornalista encontra-se o item 14, “b) Tratar com respeito a todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar.”, então por que em momentos tão recorrentes ,cidadãos ao abrir as paginas de um jornal, se sentem feridos pela imprensa?

Possivelmente encontra-se resposta no desrespeito a outro item do código” a) Ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, todas as pessoas objeto de acusações não comprovadas, feitas por terceiros e não suficientemente demonstradas ou verificadas.”, o curioso é que este item se encontra também no artigo 14 do mesmo código.

Mas será que a todo tempo a imprensa brasileira busca ferir imagens sem pensar em consequências?

Segundo Eugênio Bucci, no seu livro “Sobre ética e imprensa”, as distorções da realidade ocorrem de forma deliberada ou inadvertida, a distorção deliberada é a mentira pura, consciente, dita pelo profissional do jornalismo para atender um interesse escuso do proprietário do jornal ou de alguém do qual mantém uma relação promíscua de dependência ou interesse, ou até mesmo para atender seus próprios interesses, colocando-os acima do interesse publico. Já a distorção inadvertida ocorre, principalmente  pela má formação do profissional, as vezes por sua inexperiência, ou até mesmo pelas pressões sofridas por conta do “dead line” ou pela necessidade do furo jornalístico a qualquer preço. A pressão costuma ser inimiga do bom jornalismo.

A má cobertura, tem um preço muito alto a ser pago, fere famílias, destrói lares, dificulta o entendimento da população e pode até mesmo prejudicar o foco de investigações , mais o prejuízo não sentido, que a imprensa nega saber, é o da imagem dos veículos e da profissão, o mal jornalismo destrói o papel da imprensa, nos afasta de nosso código de ética, embaraça e faz cair em  descredibilidade os profissionais e os veículos.

O problema não é a critica, mas o “veneno” como afirma Bucci em seu livro , o veneno destrói qualquer um que tenha um mínimo de reputação, e depois que ela é destruída em letras garrafais das primeiras paginas, diga-se de passagem a pagina mais lida de um jornal, ela dificilmente se reconstrói nas letras miúdas dos direitos de resposta das paginas interiores, por mais que a mídia tente se redimir, como no caso escola base, onde os proprietários de uma escolhinha tiveram suas vidas destruídas após a falsa acusação de violência sexual  contra menores, a imagem desfeita nunca é totalmente reconstruída , o povo munido do jornal, já encontrou seu culpado, já comentou com os vizinhos o quanto desconfiava da “cara” dos “culpados”, já desejou e muito que eles fossem punidos, e já é tarde demais para se voltar atrás deste julgamento publico as “bruxas de Salem”.

  1. Os casos

“Juraci e o pulmão”-  O ex- prefeito de Fortaleza Juraci Magalhães, não era um dos políticos mais queridos de Fortaleza, no ano de 98 começava a surgir o escândalo da merenda escolar, e a implementação da taxa do lixo havia desagrado a muitos, ao mesmo tempo era época de eleição presidencial, o próprio partido de Juraci estava dividido entre sua reeleição ou o apoio a outro candidato, por um outro lado, a nível nacional Lula e Fernando Henrique ,estavam em disputa eleitoral. No Ceará começam a surgir noticias sobre as constantes idas e vindas de Juraci a São Paulo, criticas inúmeras e muita boataria sobre seu papel enquanto prefeito, umas das viagem em maio, teve uma volta mais demorada, e o caos se espalhou na imprensa, e consequentemente na cidade. O motivo da demora? Juraci estava com câncer no pulmão, e ia a São Paulo para tratamento. A resposta dele as matérias? “ainda vou enterrar muita gente!”

“o estupro do Povo”– no dia 6 de Abril de 98, o ombudsman do jornal O Povo, Lira neto, chamava atenção para um caso de estupro escrito na pagina policial do Povo, nele o nome da vitima, aparece de forma a preservar sua identidade em uma abreviatura, mas o endereço da casa  dela e o nome do marido. Resultado , desta vez a vitima foi tratada como vitima, mas sua tragédia pessoal foi estampada na cara dos vizinhos , parentes, filhos, amigos e colegas de trabalho.

“Caso Ibsen Pinheiro”-  2004 foi o ano em que se produziu “Como o mau jornalismo transformou US$ 1 mil em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil – Ibsen Pinheiro, ex-presidente da Câmara dos Deputados, MASSACRADO” ( IstoÉ nº 1813)baseado no relato de Luís Costa Pinto,  que, movido pelo “desejo de tirar um peso histórico dos ombros”, confessou ter feito um erro proposital contra o deputado Ibsen Pinheiro, durante a  CPI do Orçamento, na matéria que fez para Veja “Uma estrela na lama”, dez anos antes.

“ Antônio o pistoleiro”- Imagine abrir um jornal e ver sua foto estampada nele, imagine se na matéria sua esta relacionado a um crime que jamais fez. Antonio Farias, teve esta terrível sensação ao ver sua foto no jornal o Povo, de junho de 98, na matéria que falava sobre a investigação do assassinato do prefeito de Santana Do Acaraú, o pobre Antonio teve sua foto confundida com a de outro Antonio , e ele acabou “acusado” de um crime que não cometeu.  O jornal conseguiu a foto com uma “fonte”, pelo visto, não se preocupou nem em investigar, nem se a fonte sabia o que fazia.

Shopping Osasco”- Uma ala inteira do Osasco Plaza Shopping explodiu, a imprensa motivado por comentários infundados e declarações que surgiram aqui e ali, publica que o shopping explodiu por conta de um vazamento de gás que estava continuo e deixava cheiro acumulado, caracterizando erro da administração do shopping, nas semanas que se seguiram , o administrador do shopping, passou pelo pior que a imprensa pode oferecer, o fato e de que na realidade, gás não se acumula por muito tempo sem explodir, o cheiro era de um lixão, e a explosão aconteceu por conta da construção mal feita do shopping. Na hora de escolher culpados, entre a construtora e o trabalhador, a imprensa escolheu o trabalhador , a mãe do rapaz desabafou: ”fomos colhidos por uma onda de denuncismo equivalente a carga de dinossauros do Jurassic Park”.

  1. Desenvolvimento

No livro O jornalismo dos anos 90, Luis Nassif, afirma que depois do Fora Collor, a imprensa brasileira, experimentou um buraco nada agradável nas vendagens dos jornais, as manifestações populares , o escândalo político haviam gerado milhares de noticias e crescido os números de vendagens dos jornais a números que há muito não existiam, a procura do publico para o assunto de estremo interesse, quase sempre gerado por furos atrás de furos, era responsável por essa febre. Mas o presidente foi exonerado do cargo, e os escândalos cessaram, desta mesma forma a imprensa ficou com este espaço, que precisava ser preenchido de alguma forma, e não havia outra se não a “produção”, de mais escândalos, foi por isso, que os anos 90,se tornaram os anos dos escândalos e o também da noticia dada as pressas sem fundamento, as noticias que geram linchamentos públicos, a caça as bruxas.

“Art. 2º- A divulgação da informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independente da natureza de sua propriedade.”

Segundo Lira neto em seu livro A herança de Sísifo, no jornalismo prevalece a máxima de que “ se nossas ideias não correspondem aos fatos, então pior para os fatos,” desta forma segundo ele, a imprensa cria um mundo a parte “um mundo midiático que já perdeu totalmente o vinculo com o real”.

“Art. 3º- A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo”

Ferindo-se a profissão, encontra-se a figura do profissional em primeiro lugar, e do jornalista a função de checar as fontes,ouvir os dois lados da questão, não se deixar levar pela histeria coletiva, não cabe ao jornalista julgar, isso é o trabalho da justiça, e todos são inocentes perante a lei ate que se prove o contrario. Não se dá ao policial que deseja aparecer, mais espaço na mídia que a própria noticia.

“Art. 7º- O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação.”

Ao ferir a imagem de pessoas, mesmo que tenhamos todos os motivos para acha-la digna de linchamento publico, abrimos o preceito de que pode-se fazer o mesmo com quem quer que seja, e desta forma permitimos que a imprensa deixe de atender seu papel de defensora do interesse publico para transforma-la em arma fatal.

  1. Conclusão

A sensação de linchamento publico é com certeza tal letal quanto uma facada, algumas vezes pode levar a morte, física ou moral, nas duas, não há como sobreviver depois de ser invadido pela imprensa. As marcas ficam não só nas vitimas mas também naqueles que estão próximos.

A censura não é o melhor meio de impedir a profusão de denuncismo, e com ela, a democracia encontraria ferida tanto quanto, a democracia encontra-se neste cenário atual da imprensa.

A solução real para os problemas da mídia, e para a  tentativa de extinção dos assassinatos morais, esta primeiramente na formação do jornalista, o profissional que sabe a importância da apuração dos fatos e das fontes, não comete erros deste tipo, a boa escrita proveniente do estudo também evita dubiedade das informações.

A segunda solução encontra-se no aprimoramento das relações de trabalho, o jornalista que trabalha mais horas que pode suportar, trabalho sobre pressão , com muito pouco tempo para realizar um numero maior de matérias de que pode realizar,não consegue passar muito tempo sem cometer erros, alguns destes tão profundos que  chegam a marcar suas trajetórias pessoais.

E por fim, a melhor das soluções e a garantia do Conselho nacional de Jornalismo, atualmente pouco se responsabiliza, aqueles que são responsáveis por erros deste tipo, o jornalista ou a empresa jornalística pede muito menos que a pessoa que foi desmoralizada na mídia, mesmo que haja retratação publica. O conselho fiscaliza justamente o código de conduta da profissão, que hoje, como pudemos observar, e letra morta na constituição brasileira.

“Art. 11- O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho  não tenha sido alterado por terceiros.”

7.Bibliografia

 

  1. Bucci,Eugenio ,Sobre ética e imprensa,Companhia das letras,
  2. Nassif,Luis,O jornalismo dos anos 90,São Paulo,Futura,2003
  3. Neto,lira, A herança de Sísifo,Fortaleza,Demócrito Rocha,2000

 

 

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