Do Real ao imaginário- Política e Comunicação

(Publicação de 12 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Mexe aqui e ali, acabei encontrando alguns textos da época de faculdade. É curioso ver como construímos um pensamento. Este aqui trata de política e comunicação.

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Introdução

Imagem não é tudo”, esse foi um jargão de uma propaganda de refrigerante durante campanha para atingir as vendagens de outro produto da sua empresa a Coca-Cola.

Provavelmente esta propaganda é a máxima prova de que imagem é tudo. Hora se não é a própria Coca-Cola a primeira empresa de vendagem de refrigerantes do mundo, e que investe fortunas com propagandas elaboradas.

Esta propaganda reflete a política atual e sua relação com a mídia. Com todo um aparato o que parece ao público como conteúdo, é na verdade imagem. E imagem, é tudo.

Para o desenvolvimento deste trabalho sobre espetacularização da política, analisaremos primeiro o conceito de política, respondendo as seguintes perguntas: O que é? Como ocorre? Para que serve? Buscando a análise de Aristóteles em “A Política”.

Segundo Aristóteles, o homem é um animal político. Isso significa que buscamos na política a forma de solucionar nossos dilemas. É importante ressaltar também que a política para Aristóteles, e a política através dos tempos, se fundamenta no dialogo das diferenças para atingir um “meio termo” (1) ou o que chamamos de consenso.

A política grega era em essência espetacular. Os cidadãos (2), reuniam-se em praça pública para dialogar sobre as mais diferentes questões da polis. Naquele momento todos podiam dialogar e manifestar-se publicamente.

Antônio Albino em “Espetacularização ou midiatização da política”, baseado em pesquisas e em sua vivência da política atual, determina que o espetáculo está presente em todas as práticas sociais. A política é então a pratica intuitiva do ser humano; fazemos política a todo o momento para expressarmos o que aceitamos ou não enquanto indivíduos.

“Aos amigos tudo é comum”, para Aristóteles as práticas sociais passavam pelo âmbito da amizade, no reflexo da política midiatizada, as imagens das figuras públicas são apresentadas ao povo com intimidade igual a de um amigo de confiança.

Definido política, podemos ainda recorrer a Aristóteles em seu conceito de comunicação, através da retórica. “A busca de todos os meios possíveis de persuadir”

O conceito de espetáculo político contemporâneo segundo Afonso De Albuquerque, é caracterizado por uma série de ações da mídia que vem alterando profundamente a sociedade. Porém, para Albuquerque, as análises realizadas são um tanto vagas não possuindo maior profundidade. Para buscar um apanhado geral e aprofundar-se na definição do termo “espetáculo político” a ponto de conceituá-lo é preciso recorrer as análises realizadas pelos mais diferentes pensadores que vão da primeira a terceira geração.

Espetacularização se difere de midiatização da política – O espetáculo é inerente ao ser humano segundo Antônio Albino Canelas Rubim em “Espetacularização ou midiatização da política” – Para o autor o espetáculo está presente em todos os parâmetros sociais; religião, cultura etc.., E não há como separar espetáculo de realidade.

Recorrendo a Guy Debord em “La societe du spectacle”, o espetáculo contemporâneo é uma resultante do sistema capitalista. Estando assim, intimamente ligados, percebendo a comunicação como mercadoria deste sistema. Porém com o advento da mídia, a política passou a atender a uma necessidade midiática, e o fazer político passa a ser apenas uma representação para atender as necessidades da IMAGEM VENDAVÉL.

Não podemos, porém, realizar uma leitura desses conceitos, sem o esclarecimento de Vera Veiga França em “Comunicação e política: Edifica-se uma tradição?” Onde a autora afirma que “uma tradição de pesquisa não se constrói de uma hora para a outra, mas é resultado de uma longa caminhada de muitas contribuições”. Segundo França, cada uma das gerações aprofundou suas análises através do momento pelo qual passaram, pelo que presenciaram e pelo enriquecimento das descobertas anteriores.

O que se percebe é que num primeiro momento compreende-se os recursos técnicos como instrumentos da política, e no segundo momento eles se tornam mecanismos de extrema importância e passam a impôr estratégias, formas e linguagens.

Então, as três gerações de estudos sobre comunicação e políticas são:

  1. Os apocalípticos = Que percebem a ligação do espetáculo com a política de forma negativa
  2. Os descritivos= Que percebem a ligação do espetáculo com a política, e apenas a descrevem distanciando-se do objeto.
  3.   Os que buscam uma visão de analise imparcial, diante com enorme crescimento de pesquisas.

                   Apocalípticos- Guy Debord é um deles, Antônio Albino em “Espetacularização ou midiatização da política” considera a análise de Debord prejudicada, pois atribui “ao espetáculo como dispositivo imanente uma conotação negativa”.

Segundo Albino, Debord “aprisionou” o espetáculo a uma existência capitalista.

RogerGerard Schwatzenberg é outro autor considerado apocalíptico, ele sentenciou: “Hoje em dia, o espetáculo está no poder. Não mais apenas na sociedade. De tão enorme que foi o avanço do mal.”.

Para os apocalípticos, o uso da mídia, traz uma despolitização da sociedade e o debate de ideias é substituído por um tratamento marcado pelo sensacionalismo.

Para alguns estudiosos, o que permite a existência de um espetáculo é a fundição entre o que é real e a representação: Conceito de Hiper-realidade.

Descritivos – Inundados pela noção de distanciamento do objeto de estudo para obter uma “verdade” e pela busca por um modelo de análise mais imparcial que o apocalíptico.

Ocorre a onda de analises meramente descritivas que visavam identificar a relação da mídia com a política.

        Peter Burke e Apostiles, experimentaram a propaganda acerca de Luis XIV. Para Burke a propaganda obedeceu “a um projeto sistemático” criado por Baptiste Colbert utilizando uma serie de artistas, intelectuais e escritores. Apostiles destaca “a evolução experimentada pela representação real”.

(Albuquerque Afonso- “Aqui você vê a verdade na TV”.)

                        Segundo Vera Veiga França em “Comunicação e política: edifica-se uma tradição?”, os conceitos Harbermazianos introduzidos desde a década de 60, sobre esfera pública e opinião pública, tornaram-se referências centrais na análise da política contemporânea.

                 Com uma explosão de análises e pesquisas sobre o tema. Que variam de negativas -onde se acusa a mídia de despolitização onde a escolha política dos cidadãos está sendo trocada por uma escolha afetiva- As análises que sustentam uma ideia positiva -como uma reformulação do processo democrático e “alargamento dos atores políticos” – Passando por “análises unitaristas vindas da economia e da noção de mercado” que segundo a autora, reduzem a prática política a disputa eleitoral.

França destaca os trabalhos iniciados por M. Porto, que apresentam um modelo alternativo baseado nos estudos culturais ingleses,e que separam as “relações de comunicação com as relações de dominação político – cultural”.

Segundo Vera Veiga França em “Comunicação e política: Edifica-se uma tradição?” o surgimento de uma teoria da comunicação na escola americana criada a partir “da temática comunicação e poder”, iniciam estudos relacionados a eficiência do uso da propaganda como forma de persuadir o eleitor e a preocupação ética da utilização destes meios.

                           Alguns pesquisadores chegam a afirmar que o modelo criado pelos americanos para persuadir o eleitorado se espalhou para outras nações inclusive o Brasil. Mas para Antonio Albino em “Espetacularização ou midiatização da política”, onde ele afirma que o espetáculo é próprio do ser humano em suas mais diferentes formas de viver social, o que pode nos levar a concluir que o espetáculo no Brasil, passa inevitavelmente por peculiaridades culturais próprias da nação.

                         E citando, novamente, Vera França, o espetáculo ocorre em cada local em cada época com as características que o cercam.

No Brasil, segundo Rejane de Carvalho Vasconcelos em “Transição democrática brasileira e padrão mediático publicitário da política”, após o período das Diretas, com uma abertura política e com o processo de democratização, ocorre uma mudança na forma de se comportar diante do eleitor. Fugindo dos padrões de “apelo do regime militar”, o marketing político volta-se a uma nova fase, com a mídia “produtora e reprodutora” da cultura e do cotidiano.

Azevedo e Rubim, em “mídia e política no Brasil: textos e agenda de pesquisa”, identificam uma “agenda temática” dos estudos sobre o fenômeno do espetáculo pautada em sete itens:

  1. Comportamento eleitoral e mídias
  2. Discursos políticos midiatizados
  3. Estudos produtivos da mídia
  4. Ética, política e mídia
  5. Mídia e reconfiguração do espaço público
  6. Sociabilidade contemporânea, mídia e política.
  7. Políticas públicas de comunicação.

Partindo destes princípios os autores acreditam estarem próximos de um estudo mais aprofundado sobre o tema.

                                 Depois da abertura, surgiu no Brasil os horários da propaganda eleitoral gratuita veiculados nos sistemas de rádio e TV.

Em palestra na Faculdade Integrada do Cear´(FIC), o deputado Estadual Chico Lopes (PCdoB) declarou que durante o período de eleições ele se limita a obedecer seu assessor Inácio Carvalho, mesmo detestando ter de pintar o rosto para gravar o programa eleitoral.

                             Estética da mostrabilidade – Os profissionais contemporâneos de mídia empenham-se na criação de uma imagem midiática que é vendida ao eleitor que compra a compra com o voto. A sociedade atual busca escolher as imagens que lhe soam agradáveis, que lhe satisfaçam socialmente e isso se torna mais importante que a prática política em si. Levando inclusive a uma decadência dos partidos.

            “O que é belo deve ser mostrado, principalmente se referir ao particular da pessoa pública”.

                               Fernando Collor de Mello foi eleito presidente do Brasil numa clara utilização da mídia. Para o autor de “Cenas da vida privada”, Tatiana Gianordoli, após um processo de abertura da democracia, a eleição de Collor se configura como a escolha por uma imagem de um “Brasil moderno”. Expressa na figura do presidente jovem, e esportista. “A modernidade é um objeto de desejo”.

Gianordoli, afirma ainda que durante as campanhas eleitorais numerosas pesquisas “fazem aparecer notadamente” e através do consumo das mídias.

O assessor do Deputado Estadual Chico Lopes na palestra da FIC, afirmou que as pesquisas são principais indicadores do desejo popular e que são determinantes no desenrolar da campanha para o profissional que realiza o marketing político.

Gianordoli, diz “Há então uma serie de estratégias enunciativas que transformam as cenas políticas em espetáculo, talvez a mais significativa estratégia seja a recontextualização de temas da esfera pública”.

Conceito de CR-P – é um conceito muito próximo ao conceito de hegemonia de Gramsci, aonde uma classe dominante que se encontras no poder determina toda a política a ser realizada por uma classe não dominante. Porém o conceito de CR_P busca analisar de forma mais abrangente essa relação incluindo elementos sociais como a religião. Indo desta forma além do que Gramsci, conseguiu conceber em vida, atingindo os adventos da mídia e analisando como a sociedade hegemônica e contra hegemônica conseguem utilizar a mídia para defender seus interesses na sociedade contemporânea.

Conclusão

Passando por todas formas de análise de espetáculo político, e buscando minha própria experiência dentro do espaço político de um partido de esquerda, cito Azevedo:

             “A argumentação racional que deveria guiar a razão política e a escolha eleitoral do cidadão estaria sendo substituída pela adesão afetivo – emocional estimulada por apelos publicitários, resultando, deste modo, no empobrecimento ou mesmo na eliminação do debate político na cena democrática contemporânea”.

                           Para Lenin, em seu livro “Que Fazer?”, a comunicação política deve ser clara e a linguagem acessível à população, esse ideário esteve presente nos veículos considerados “alternativos” na trajetória do Brasil ao longo da ditadura militar, e ainda se encontra presente em veículos de comunicação existentes em partidos políticos que possuem determinada disciplina teórica em torno de seu ideal.

A adequação desta linguagem através de estudos na área de comunicação é propícia principalmente na contemporaneidade, mas adequar-se aos veículos de mídia.

Proporcionar a disseminação das ideais políticas não deve jamais interferir no conteúdo e na informação, o espetáculo tem de possuir um limite crítico que não impeça o exercício real da política através do embate de ideias a ponto de transformar a realidade em imaginário.

                 A política não é um produto a ser vendido publicitariamente como aqueles expostos no mercado, pois caso ao contrario o resultado não pode ser outro se não aquele que se apresenta na atualidade. Onde, as propostas políticas e seus atores se repetem, sobrando apenas o diferencial de uma sigla partidária que muitas vezes não condiz com as suas representações públicas, transformando assim, a busca por um país melhor em algo extremamente estético e superficial. Onde o eleitor vota muito mais pela vida particular da figura pública do que por suas realizações e ideais. O que gera muitas vezes, a escolha de atores não qualificados ao exercício público.

     A cidadania é primordialmente o principal ponto a ser respeitado pelo profissional de mídia, e, a partir deste respeito cabe ao profissional de mídia pautar a divulgação desta imagem.

                 Porém o profissional de mídia, não exerce este poder sozinho, ele só é possível a partir do momento em que, culturalmente e socialmente, o eleitorado consegue perceber a importância da analise com profundidade sobre a competência da figura pública.

Para o profissional de mídia política, enquanto a sociedade buscar apenas as imagens sem a totalidade do conteúdo, Imagem será tudo.

 

 

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