Globalmente miserável

(Publicação de 12 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Mexe aqui e ali, acabei encontrando alguns textos da época de faculdade. É curioso ver como construímos um pensamento. Este aqui foi feito para a disciplina do professor Lauriberto Braga E FALA DE ORKUT.

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Quando o pior da essência humana encontra um meio para se difundir, o resultado são as mazelas de nossas sociedades estampadas nos meios.

Crônica

7º Semestre manhã

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Abre-se o Orkut, aquele mesmo, criado exclusivamente para um “seleto grupo de amigos”, onde colocamos todos nossos dados pessoais, nossos desejos mais íntimos ou aqueles desejos que adoraríamos que todo mundo lesse.

Afinal de contas todos sabemos que o Orkut não é para nenhum grupo exclusivo de amigos. Está nele nossa mania incontrolável de leitura, de preferência Gorki , mesmo que na verdade , nossa última leitura tenha sido de uma revista velha no consultório do dentista mês passado.

E no meio de nossa ilusão virtual está o “script”: garotas quentes, sexo virtual, clique aqui. Que alguém totalmente desconhecido resolveu postar, e se não bastasse, o “meliante” utilizou nosso “nick” (identidade virtual), para recomendar o tal site de sexo para todos nossos amigos. É bem capaz, que um ou outro ainda vá reclamar que na verdade o tal “link” era vírus.

Para uma pesquisa de escola, uma menina clica no google e digita a palavra escravos, queria buscar maiores informações sobre o escravismo no Brasil, talvez umas imagens que pudessem ilustrar e ganhar de uma vez por todas uma boa nota em História, não que ela tivesse se preocupado em ir para uma biblioteca, ninguém faz mais disso, mas o trabalho com certeza bem datilografado, com um copie aqui outro ali, encheria os olhos da professora. O problema foram as imagens de sexo masoquista que apareceram na tela, gravados em algum lugar qualquer do globo terrestre acabaram inundando a tela.

Um terrorista qualquer resolveu que a internet era o meio mais fácil de divulgar imagens de uma seção de tortura. O terrorismo on-line está em voga. O mundo inteiro vendo em frações de segundo o sangue, nada virtual, da misera política mundial; da desavença entre os povos. As imagens serviram muito bem a um jovem repórter de Londres, usou tal como estavam. Não se sabe ainda se para facilitar o trabalho dele ou do terrorista, mas sabe-se o efeito, no dia seguinte o jornal impresso trazia parte das imagens com uma declaração raivosa do primeiro ministro inglês, dizendo que mandaria mais tropas para a região do terror, além do anuncio de mais um pacote de medidas tolerância zero. No pacote a inclusão de monitoramento das ações via internet de aparência suspeita a segurança pública.

A medida, no mínimo, resultou na detenção de um velho carteiro londrino, que acessou um site sobre pólvora. Não era para uma bomba, o aposentado estava planejando, criar um mini foguete para soltar com o neto.

Na esquina da casa de uma senhora tem uma pequena loja onde se vende de tudo. Inclusive a ducha elétrica que ela achou que deviria trocar, ainda nessa semana, estando a velha muito gasta. Ela achou mais conveniente comprar uma nova com cartão numa loja virtual qualquer. O resultado, um tanto irritante, foi que a ducha não chegou nunca até a sua casa. Mais sorte teve que uma velha amiga, o número de sua senha foi clonado e todas as economias acabaram numa conta noutro canto da terra.

Uma mocinha muito tímida, não saia de casa para nada. Não tinha a menor intenção de tentar buscar socialização além dos muros, passava o dia on-line com seus muitos amigos virtuais. Cada vez mais, sua timidez ganhava espaço proporcional ao número de horas em que ficava conectada. Quando a mocinha arrumou um namorado virtual a mãe até que gostou da ideia. Uma hora a menina ia querer encontrar o cara pessoalmente. E quis mesmo, só que o cara não era o legalzinho do campo virtual. O final da história encontra-se no arquivo de uma delegacia qualquer esperando laudo da perícia sobre o corpo da menina.

A culpa deveria ser do Diabo. Assim, sem muito remorso, nos livraríamos da culpa que transtorna nossa hipócrita sensação de vítimas de um sistema, mesmo que seu criador não tenha sido o Diabo…Nem Deus.

Mesmo que a miséria da alma, mesmo que o terrorismo e o sexo banalizado sejam praticados por pessoas e não máquinas, mesmo que a total ausência de leitura e o descarte da busca pela informação coerente sejam práticas da sociedade da rapidez e do consumo, é melhor culpar algo que não a nós mesmos.

Por que é mais fácil filosofar sem remorso, do que filosofar sobre a solução?

Temos a internet, ela deveria ser uma solução. Mas não são soluções que a humanidade busca. Ela busca o que alguns poucos acham que devemos buscar. E vai ser assim. A reprodução de nossas mazelas, a nossa ignorância estampada, por que quem programa as máquinas são os homens, e não o contrário.

A internet é um dos meios de comunicação da humanidade, por sua velocidade e capacidade de dar, ao mesmo tempo, o maior número de informações. Ela é o veículo de maior crescimento da sociedade moderna, sua implementação se deu mais rápido que qualquer outro veículo, e a forma com que ela pode ser utilizada por todos aqueles que tem acesso, permitiram que fosse um mundo sem fronteiras. Um território global.

Mas nem sempre democrático. Quando temos acesso a um número ímpar de informações incorretas, a uma invasão de ideias mal elaboradas, de absurdos capazes de ferir nossos conceitos culturais de ética e moral, somos invadidos no direito democrático essencial que é o de sermos quem somos enquanto indivíduos existentes dentro de uma nação.

Quando se censura os conteúdos de acesso destes veículos, estamos mais uma vez sendo feridos no nosso direito a informação e no direito de escolhermos, o que queremos ou não, como parte daquilo que nos constitui enquanto indivíduos.

O que se encontra na internet é o resultado do conceito que os homens têm e como eles se comunicam. Infelizmente, as nações ainda não censuraram a falta de cultura, a escola ruim, a criminalidade e a violência, se a sociedade tivesse outros conceitos a comunicar, provavelmente o conteúdo da internet seria de outros valores, não se proibiria por exemplo, o acesso a textos e livros por motivos econômicos.

Se a imagem refletida no espelho das mídias é feia e não agrada, é hora de se refletir sobre a imagem, não sobre o espelho. Por que por pior que seja o espelho.

Talvez no dia em que formos melhores a internet seja melhor.

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