As marcas da loba

( Publicação de 10 de novembro de 2012- migrada do blogspot)

Ela olhou mais uma vez no espelho, o rosto jovem de antes já não estava mais lá. Perderam-se os finos traços que lhe riscavam a face lhe trazendo o frescor dos jovens amantes.

Surpresa, não estava. Sabia que a idade quase sempre chega sem muito alardear. Mas, em seu olhar, se fossemos nós o espelho, notaríamos a angustia por que as ruguinhas que aparecem aqui ou acolá, nela não eram marcas de vida vivida, mas de vida sofrida.

As tais marcas tiraram, dela mulher, qualquer aparência de frescor de menina. São estas marcas trabalhadas pelo caminho das lágrimas, vincadas pelo medo e talhadas pelo forte desespero, que fizeram a passagem da menina mulher para a mulher inverno.

Pensou diante de terrível constatação que poderia desabar. Quando muito se engole, o fel quase nunca é posto para fora e, dentro do peito corroí o que existe de alma.

Decidiu que talvez o melhor fosse sair de cena, mas percebeu que coragem lhe faltava ou que então, muita coragem tinha, por que dentro de si ainda existia à vontade, danada, de espiar a vida por mais um segundo.

Escreveu assim, mais de cem cartas, cada qual para alguém que a magoou. Escreveu para os pais. Aos que na escola lhe zombavam. A professora que não lhe sorria. Ao carteiro que já não trazia cartas. Escreveu aos maus amigos e as paixões não correspondidas. Desabafou escrevendo a ilustres desconhecidos e até a Presidente da República reclamando dos pacotes. Escreveu para os que se esquecem de dar bom dia.

Deixou por último a mais importante das cartas, a que dedicou a seu grande amor. Nela o chamou de velho amigo e logo indagou: Porque você velho amigo, a quem dividi o mais profundo dos meus sentimentos, esqueceu-se um dia de me amar?

Perguntou-lhe se não viu que quanto mais longe ia, mais de perto ela o seguiria com a fidelidade canina de quem ama sem condições. Questionou, se ele jamais via ainda doce enternecer-se seu olhar mesmo quando ela desfiava o mais doido dos golpes. Judiaste de alguém que lhe fora tão leal, desabafou.

A cada fio de linha preenchido, podia-se perceber que era mulher simples, daquelas que apreendem a servil.

Muitos agora haverão de apiedar-se dessa mulher ao vê-la tão pequena determinada a sustentar estruturas sociais tão velhas. Mas, não o façam. Na dupla jornada, entre a louça lavada e o perfume para o amado, o trabalho suado e colégio dos meninos. Essa servil mulher, fez o que muitas fazem. Construiu um castelo dos contos de menina e nele protegeu sem medo do sacrifício de seu peito quem tanto amava.

Escreveu ela por fim, que a dor de uma traição, nem sempre está nos beijos dados em outros lábios. O trair, se você não sabe, nem sempre é físico, desdenhou a mulher.

O que fizeste, velho amigo, foi trair justamente nossa amizade por outra. E tal traição, essa sim, doí como gilete cruzando todas as minhas partes.

Finalizou dizendo, que essa era a única, entre tantas outras cartas, que não expurgava de sí o fel. Esse veneno que me fizeste tomar, declarou, ficará dentro de mim e essa dor ainda quero. Por que de todas as dores que marcam, concluiu, a dor do amor é a que mais se espera.

Então se acariciou, dando em sí mesma um forte abraço. Correu ao espelho e sorriu.

 

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