Criminalização e exclusão dos movimentos sindicais na grande mídia impede o acesso livre à informação

( Publicação de 18 de julho de 2012- migrada do blogspot)

Estamos acostumados a acompanhar os processos políticos que acontecem no mundo. O povo brasileiro, neste sentido, está muito bem atualizado. Já cansei de ser surpreendida de quanto, em alguns países, as pessoas conhecem sobre sua própria história e desconhecem todo o resto do planeta.

Mas, às vezes me surpreendo também como podemos considerar um avanço democrático os processos de reivindicação política de outras pátrias e tratamos os nossos com total desdém. Parece, neste caso, que a luta alheia é mais justa que a nossa.

E não estou falando da opinião dos donos do poder, faço referência à opinião dos revolucionários de porão. Aqueles que se dizem formadores de opinião e que se deliciam com as manifestações de rua europeias, mas se assustam quando a luta bate a sua porta.

Recentemente, acompanhei de perto, a lógica truncada de muitos que aplaudem de pé manifestações gigantes em outras bandas, mas logo reclamam pelo direito de ir e vir quando cinco mil operários da construção civil tomam as ruas de Fortaleza.

E logo, o discurso descamba para tratar trabalhador como vândalo.

A grande mídia, possuí sua parcela de culpa neste processo. Nela, luta dos trabalhadores brasileiros ou é ignorada ou é criminalizada.

Nem sempre é o jornalista o principal responsável, muitas vezes, alguns colegas de profissão quase pedem desculpas pelo que sai publicado. Outras vezes, o culpado é ele mesmo, que já saí a campo “querendo sangue” para agradar o patrão.

Na construção civil, fui testemunha das inúmeras vezes, que o presidente do sindicato, Nestor Bezerra, pediu que não deixassem de noticiar o que era ruim, mas que ao menos, mostrassem o outro lado, mantendo a imparcialidade jornalística.

O pedido, quase nunca foi atendido.

Certa TV, chegou ao ponto de mostrar um operário fumando cigarro Maratá ( fumo de tabaco enrolado e de baixo custo) e insinuar que o consumo era do que aparentava ser um cigarro de maconha.

Surpreendi-me também com jornalista abrindo mão do contato com a fonte, para no dia seguinte disparar com uma matéria tão parcial, que conseguia de maneira gritante, se diferenciar das publicadas nos jornais concorrentes.

E o ciclo ignorar, marginalizar e esquecer seguiu-se nas demais greves que se iniciaram este ano. Em tamanha dimensão, que dois dirigentes do sindicato dos gráficos, foram chamados a responder pela quebra de um portão de vidro do Jornal Diário do Nordeste, sem que um deles sequer estivesse presente no momento.

Em plena, greve de ônibus, um veículo foi incendiado pela população revoltada com um atropelamento ocorrido na semana anterior. O resultado? Um canal de TV, sem a menor cerimônia, passou a juntar as imagens da greve com as do incêndio como se ambos tivessem relação, mesmo tendo a policia descartado qualquer hipótese de que os grevistas fossem os autores do crime.

Esses exemplos são parte do que vivenciei e servem de reflexão (até para mim) sobre como as paredes da democracia brasileira ainda são mais frágeis que as de uma casa de taipa.

Não me entendam mal, sou uma brasileirinha apaixonada e tenho horror das generalizações. Também sei que há excelentes profissionais por aqui. Porém, às vezes ainda me pego olhando com certa tristeza para meu companheiro de vida e de trabalho, tentando convencer o jornalista do outro lado da linha, que a violência da derrubada de um portão é perdoável, mas a morte de um operário não se repõe com um conserto.

Sei que muitas vezes, ele fala com o vento, mas, admiro que não desista. Enfim, alguém ainda tem de gritar, quando o restante silencia.

A questão é que têm muita coisa acontecendo no movimento sindical. Sobre a luta dos trabalhadores no Brasil, podemos afirmar que estamos sendo testemunhas de um novo momento.

Histórias de luta que se relacionam e que fazem parte do contexto político e econômico do Brasil e do mundo. Manifestações que dariam uma série de matérias e reportagens caso houvesse uma maior profundidade investigativa. Mas, a nossa cegueira, fruto do silêncio que herdamos da ditadura militar, do medo de desemprego que ainda assola as redações, do fim da exigência de diploma para o exercício do jornalismo, da falta de uma regulamentação da comunicação e da hipocrisia tola, impedem que a informação ultrapasse o “gate keeper” das redações (conceito jornalístico que define aquele que filtra a notícia).

Uma boa matéria poderia abordar o quanto as greves de Jirau e a dos policiais e bombeiros foram significativas para o restante do movimento sindical.

Um bom faro jornalístico poderia verificar que os trabalhadores das mais diferentes correntes sindicais estão vivenciando processos de luta intensos com greves de longa duração pós Governo Lula.

Mas, por enquanto, a criminalização e a exclusão são a regra, e quando não, as noticias são quase sempre pontuais. O que dizer da greve dos professores das universidades federais, que quando é divulgada, quase sempre é por meio de uma nota de balcão?

Enfim, nosso problema não é de pauta. Infelizmente, a liberdade de imprensa vem sendo confundida com liberdade de empresa, e assim, o assunto de interesse de categorias inteiras, que reúnem, algumas vezes, cerca de 60 mil trabalhadores, não é de interesse público. Vai entender?

E na onda da tal liberdade tem sempre um revolucionário de porão, bradando que a luta dos jornalistas brasileiros é coisa de petista, e que todo mundo tem a liberdade de usar o controle remoto. Ora, francamente, liberdade do controle remoto, eu até gostaria de ter para mudar de canal, mas não acabar em mais um brilhante programa policial na hora do almoço. Essa sim seria a liberdade, do contrário, é simples exclusão.

 

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