O bom presente pode ser sempre um sorriso e certa dose de felicidade e/ou a última lição de Chico Anysio

( Publicação de 16 de abril de 2012- migrada do blogspot)

Fazia algumas semanas que ele vinha postando no facebook a sua mais nova descoberta, Baianos e os Novos Caetanos, e eu tentando entender aquela capa cheia de caras e bocas de Chico Anysio, o humorista cearense.

Não deu outra, o Chico morreu aos 80 anos de uma parada cardiorrespiratória, dando fim a um sofrimento de semanas, e o rapaz foi logo a Livraria cultura comprar um exemplar do CD antes que ele suma das prateleiras, mas deu “sorte, foi uma surpresa encontra-lo lá esperando”.

Não vou dizer que me surpreendi pelo CD não ter acabado, até mesmo por que só depois que o artista morre é que se resolve comentar tudo aquilo que ele fez e na maioria das vezes ficamos sós com sua faceta mais conhecida, aquela mais comercial que a indústria deseja apresentar.

A minha surpresa, mesmo, foi o CD estar lá, afinal não estamos nos referindo ao último CD de musicas “super -hiper- inéditas” descobertas após a morte do Michel Jackson, mas de um CD de certa forma irreverente de um humorista nascido em Maranguape, Ceará em 12 de abril de 1931, com o nome de Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho e que conquistou um país com seus mais de 400 personagens que fizeram rir muitos brasileiros.

Então, o rapaz, estendeu-me o CD, (depois de namora-lo bastante)- “você quer?”-, quero não, (não vou mentir, pensei eu…) Primeiro por que tenho sérias dúvidas que ele queria dá-lo, e segundo (essa confissão tive de fazer em voz alta), por que não gostava muito do Chico Anysio.

E antes, que o Brasil inteirinho venha atrás de mim morto de ódio… Vou logo me explicando, nunca fui muito fã de programas de humor, e também por que ele casou com Zélia Cardoso de Melo, economista e ex-ministra da Fazenda do Fernando Collor, mas disso acho que ele nem tem culpa, afinal vai entender como funciona o coração?

Sendo assim, tenho de admitir de pronto, que eu gostando ou não, o cara tinha uma criatividade do caramba! E por essa criatividade fecunda, eu não posso de forma alguma deixar de reconhecer que foi alguém que fez diferença, se não em minha vida, na de milhares de brasileiros e na de diversos artistas do humor, que pelas suas mãos deram vida a personagens e reviveram muitos que estavam esquecidos.

Chico Anysio soube bem usar a cabeça e deixou suas marcas, tanto que ele se foi, mas o talento… Esse ficou.

Então o rapaz insistiu, disse que queria deixar, por pelo menos um dia (que não nos veríamos) um pedacinho dele comigo, e pedacinho de quem a gente gosta, não podemos deixar por ai, o lance e recolher e guardar juntinho, por que é o pedacinho que preenche os outros tantos que perdemos ao longo da vida.

A intenção do namorado, porém não demorou a se revelar… Escuta e escreve um texto para o blog,( e fez cara de “pidão”). EU? LOGO EU? Que não curto Chico Anysio e que só entendo de música o pouquinho entre a trilha da novela e o que soa bem ao ouvido?

Mas, pedido com carinho, quem há de dizer não?

Cá estou escrevendo, pra dizer que o CD assim… Até que é bom mesmo. Muita brincadeira, um ritmo interessante “a lá novos baianos”, as letras que por vezes chegam a ter o som da claque de risadas típicas de um programa de humor, trazem tiradas interessantes como:

‘Urubu tá com raiva do boi

E eu já sei que ele tem razão

É que o urubu tá querendo comer

Mais o boi não quer morrer

Não tem alimentação “(.)

Trecho de Urubu tá com raiva do boi

Outras vezes, elas trazem um pouco do que o humorista deve ter visto ao longo da vida… Uma imagem tipicamente nordestina:

“Lá vem a procissão

Toca o sino late o cão

E todo mundo corre e todo mundo morre de pasta na mão

Oh de pasta na mão” (…)

Trecho de Aldeia

Para fechar em uma critica social, cercada é claro de muita ironia:

“Em cada rosto uma expressão

Em cada bucho a digestão

Um novo carro, nova capa

Enquanto velho me pede pão

 

O pão nosso de cada dia, dái-nos hoje, creditai, nossas dívidas

Assim como não nos perdoam nossos credores,

Não nos perdoam nossos credores” (…)

Trecho de Aldeia

E tudo isso cercado, é claro de uma intensa brincadeira com a música brasileira, reproduzindo sua sonoridade e “frescando” (como um bom cearense) com suas letras:

“Nessa ciranda

Quem me deu foi Lia

Que mora na areia de Itamaracá (2x)

 

Saudade de Caetano,

De Gal

De Bethânia

De Gil

Saudade de Capinan

De Macalé

De Jorge Amado

De Caymmi… Ê Dorival

Saudade de Caité

Da Menininha do Cantuá

Saudade de Obra de Laquetus

Saudade da Bahia, tá sabendo?”

Trecho de Ciranda

Vou fechando o texto, e deixo aos leitores, a chance de avaliar essa outra parte da obra do menino que nasceu e Maranguape e de travesso fez-se DIVERSO.

Para Esdras Gomes Silva, que aprendeu que no mundo “escorre sangue nas quebradas”, mas que ainda irá aprender que nas quebradas também escorre vida, amor e alegria.

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