Fortaleza não está preparada para um mar de peões

( Publicação de 05 de maio de 2012- migrada do blogspot)

Todo mundo celebrando o aniversário de 286 anos de Fortaleza no maior dos estilos, muita foto bonita circulando pelos meios de comunicação, sejam eles os grandes veículos ou a blogsfera.

Nada contra, tanta beleza assim faz bem para a alma. Mas me chamou atenção não ver entre tantas imagens uma única fotinho de quem faz a cidade. Não vi nenhuma foto de trabalhador.

A ausência que sentiram meus olhos acabou virando reflexão de um dia inteiro. Lembrei-me do sufoco que passo todos os dias, para tentar evitar que a grande mídia cearense não trate os peões da construção civil como marginais. E a luta é quase sempre do Davi contra o Golias.

A semana, tinha sido daquelas, por que nem sempre é fácil a direção de um sindicato conter dois mil trabalhadores. Acabou que uma das várias manifestações da categoria por reajuste salarial, foi marcada por um triste episódio: Os trabalhadores danados da vida com uma obra funcionando acharam por bem atirar pedras contra o local, e numa dessas uma pedra voou e acertou outro trabalhador.

Episódio infeliz demais, que fez o presidente do sindicato Nestor Bezerra, perder o chão. Mas, mesmo assim, os dirigentes correram, socorreram imediatamente o trabalhador, o levaram para o hospital e pagaram a conta. Levaram o operário em casa, conversaram com a esposa, pediram desculpas e se comprometeram a ajudar com o salário.

História que corta o coração, mas a pedrada que eu levei, partiu de outro lado e acertou em cheiro, meu orgulho da profissão. Imaginem que um dos principais jornais da cidade, fez de sua capa principal, que normalmente seria o aniversário da cidade, um verdadeiro mau exemplo de jornalismo. Estava lá a história, cercada de fotos misturadas, algumas até que dão a entender que a direção do sindicato estava envolvida no tumulto, além de uma série de informações que não correspondem ao que colhemos no local da confusão, o jornal afirmava, ao contrário dos outros, que o pedreiro tinha sido espancado, além disto, não se viu a versão do sindicato em nenhum momento ou até mesmo o depoimento do operário atingido. E cá entre nós, não foi por falta de contato e informação fornecida.

E não é só isso, trazia uma nota do Sinduscon, o sindicato patronal, afirmando que estava a disposição do operário. Como? Se quem socorreu e esteve lá ao lado dele foi o sindicato dos trabalhadores… Sei não… Só sei que a nota produzida e enviada em nome do sindicato laboral, não foi publicada.

Na nota, o Sinduscon também alega que o sindicato dos trabalhadores, tem um histórico de violência. Nesta hora, minha cabeça ferveu… Lembrei logo, das vezes em que vi seguranças armados recebendo os peões nas obras, do arame farpado nas entradas de trabalhadores e DAS 26 MORTES DE PEÕES (de 2011 até agora) que aconteceram por causa do que chamamos de acidentes de trabalho. Acidentes????

Nada justifica uma pedrada, mas 26 MORTES!

Será que tanto acidente assim, não diz para essa sociedade, que tem alguma coisa errada? Será que ninguém se questiona como morre tanto trabalhador, ninguém pergunta pela segurança nos locais de trabalho? Ninguém? Bom, com certeza, aquele jornal não questiona. O conceito de violência pelo visto, é relativo.

Mas é assim, em toda campanha salarial, aliás, em quase toda luta de trabalhadores. Ou se ignora ou se marginaliza. E o pior, a sociedade reproduz o discurso ou ignora os sofrimentos. Criamos um padrão?

Lembro logo, dos bad boys, mas também dos senhores distintos, que jogam os carros em cima dos peões no meio da manifestação. Vez ou outra, eu também quase sou atropelada. “Meu direito de ir e vir, vocês estão atrapalhando o trânsito!” – Dizem donos de tudo.

E direito a livre manifestação, só é bem- vindo quando se trata do seu umbigo? – Me desculpe motorista indignado… Eu estou lutando para poder comer.

E não é que esse é o discurso feito todinho por parte da mídia cearense, aliás, ainda sem citar nomes, tem uns que já chegam para mim, querendo saber só do trânsito… “não minha pauta é trânsito…”. Esses, inclusive, são os que costumam fugir de mim, como se tivessem medo de que informação seja doença contagiosa.

E por falar nisso, lembrei-me do ano passado, quando um pegou o release e jogou no capo do carro. Saiu lascando a pergunta ao presidente do sindicato, com certo ar de arrogância, “e o que vocês estão fazendo aqui na porta da emissora?”

Ora, estamos nos manifestando, desculpa aí mais uma vez, quem neste mundo iria saber que uma praça pública, com nome de Praça da Imprensa, ao invés de ser um lugar de liberdade é local de censura?

E a coisa fica pior quando agente ouve, aqui ou acolá, que jornalista tal também assessora o patrão ou que empresa tal, tem relação econômica com o patrão.

Mas, pera lá, tem gente nesse ramo que faz jornalismo com ética, noticia as coisas como aconteceram, sem puxar para um lado ou para o outro, e eu fico contente assim.

Tem também jornalista, que não se autocensura, que assim como eu, se arrepia, em ver, tão bonito um verdadeiro mar de peão, levantando-se no grito de guerra : “ aõ, aõ, tsunami de peão!”.

O peão que disse não, nesse mar imenso de revolução, que invade o local dos poderosos, que passa pelos prédios que ele construiu, mas que depois de pronto não pode entrar co suas botas de construção. Esse tal peão, que com outros tantos balança o coração, não viu Fortaleza em 286 anos, celebrar a força de suas mãos, mas quem sabe um dia… Ah quem sabe, Fortaleza enfim entenda que quem chora a morte de 26 camaradas, nem sempre entende por que alguém valoriza um muro de tapume.

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