Para o ano

( Publicação de 03 de janeiro de 2014- migrada do blogspot)

Pareceu-nos velho. Cansado. Carregava em si marcas de felicidade e algumas outras de tristeza. Sabemos os que ele perdeu e pelos quais chorou, também reconhecemos todos os motivos pelos quais sorriu.

Demos para ele pouco tempo para tanto que desejava realizar. Prometemos tantas coisas e, sabemos bem, que não cumprimos todas.

Porém agora é tarde! Ele já se foi. Saiu em chuva de prata. A mesma que caiu quando ele chegou.

No lugar dele, recebemos uma vida nova e todas as oportunidades que ela nos trás.

Foi-se mais um ano e mais um se iniciou. Quantas promessas poderemos cumprir? Quantos risos poderemos dar?Quantas vezes nosso coração poderá palpitar?

Recebemos 2014 e com ele podemos fazer tanto! Promover a paz! Rever amigos e conquistar outros mais! Beijar os lábios amados infinitas vezes! Abraçar! Gerar vida! Cantar e dançar! Festejar! Trabalhar duro! Estudar! Passear! Perdoar! Voar!

Enfim, podemos tudo e temos tanto tempo para sonhar!

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Reencontro

( Publicação de 10 de setembro de 2013- migrada do blogspot)

minhas artes

Encontrou-se com a menina tocando os dedos na areia grossa que circundava a lagoa. A luz do sol iluminava aqueles cabelos finos ainda castanhos claros que voavam no interesse da brisa. Perguntou-se se anda lembrava-se dela. Mas aquele gigante sorriso da menina quase tão brilhante quanto o sol não encontrou, no olhar da moça, quase brilho algum. Fez então com a cabeça um gesto de negação.

A moça já espera a resposta, também pudera, foram anos e mais anos da mais terrível solidão. Passaria ela por tanta maldade humana que dedilhar a areia era atividade que não se dedicava fazia tempo. Suspirou.

E num gesto como de outrora, abaixou-se ao chão e de leve tocou a areia. O silêncio foi de horas. Também, pouco importava a menina falar, pois sabia que os adultos pouco escutam, e pouco importava a moça falar, pois sabia que o silêncio muitas vezes falava quase tudo.

Sentadas, as duas olhavam para o horizonte. Uma e outra tentando adivinhar o que havia para além da extensão do universo. Nenhuma, porém suspeitava. Desistiram por fim e se entreolharam. Sorriram. O melhor é sempre sorrir.

Abraçaram-se por fim, e mal se pode ver onde acaba a menina e onde começava a mulher. Levantaram-se e seguiram pela costa catando cada concha e contando cada grão de areia. O final do trajeto não se pode ver. Nunca se sabe.

Doutor, a saúde vai mal, muito mal

( Publicação de 27 de agosto de 2013- migrada do blogspot)

Não é preciso uma técnica de pesquisa para entender que a saúde pública, e até mesmo a privada, vai mal das pernas no Brasil. Basta ter sido paciente um único dia para que o indivíduo chegue à conclusão de que as coisas não vão muito bem. E os problemas não vêm de hoje, são anos e anos de descaso.
Filas, falta de equipamentos e medicamentos, e até mesmo de unidades de atendimento são denúncias encontradas todos os dias nos grandes jornais de nosso país.
O Sistema Público de Saúde (SUS), porém ainda representa um grande avanço frente ao serviço de saúde de outras nações aonde as pessoas ao adoecerem hipotecam casas, abrem cadernetas de poupança ou simplesmente morrem por não conseguir garantir os custos hospitalares.
A doença que consome esse sistema, tanto o público quanto o privado, é fruto de uma lógica industrial que envolve promessas de campanha jamais cumpridas, interesses econômicos da indústria farmacêutica e também uma lógica econômica e social muito torta, reproduzida por gerações e gerações de médicos e donos de hospital.
Doenças graves podem ser bastante rentáveis.
Os médicos como categoria profissional podem e devem reivindicar seus direitos. Dedicam-se anos a fios ao estudo e gastam verbas absurdas com livros durante sua formação e toda a sua vida. Embora boa parte da população não receba salários iguais aos dos médicos brasileiros não existem custos que representem a necessidade de remunerar bem aqueles que salvam vidas.
E também não existem argumentos que justifiquem a situação dos hospitais públicos no Brasil. Mas não existem argumentos que justifiquem a falta de tratamento humanizado, os pontos fantasmas praticados por alguns médicos e total falta de iniciativa de parte da categoria em se dedicar ao tratamento dos quer mais precisam, mesmo com a oferta de polpudos salários.
O maior exemplo como as coisas podem ser diferentes é dado pela própria categoria. Os médicos sem fronteiras são uma organização humanitária internacional que leva ajuda às pessoas que “mais precisam sem discriminação de raça, religião ou convicções políticas”, conforme eles mesmos divulgam em seu site. http://www.msf.org.br
A organização que foi fundada por médicos e jornalistas atua desde 1971. E surgiu justamente em uma situação aonde faltava “de um tudo” para o socorro médico: uma guerra civil, ocorrida no fim dos anos 60 em Biafra, na Nigéria.

“Enquanto a equipe médica socorria vítimas em uma brutal guerra civil, o grupo percebeu as limitações da ajuda humanitária internacional: a dificuldade de acesso ao local e os entraves burocráticos e políticos faziam com que muitos se calassem frente aos fatos observados (…) surge, então, (…) uma organização humanitária que associa ajuda médica e sensibilização do público sobre o sofrimento de seus pacientes, trazendo à luz realidades que não podem permanecer negligenciadas”, descreve o site.

E a organização cresceu unindo cerca de 30 mil profissionais de diferentes áreas de atuação e de diversas nacionalidades, dentre elas, brasileiros. GENTE, no seu sentido mais amplo, que atua em mais de 70 países que enfrentam as mais difíceis situações, dentre elas, desastres naturais, conflitos, desnutrição e de exclusão do acesso à saúde.

Alguma semelhança?

“Há mais ou menos um mês, recebemos um menino de nove anos no pronto-socorro que estava na escola quando foi picado por uma cobra – acontece frequentemente com crianças por aqui. Ele chegou andando e falando. Veio porque os colegas o trouxeram. Depois de 30 minutos, ele começou com hiperssalivação, uma hora depois começaram os vômitos e, menos de duas horas depois de sua admissão, ele morreu e nós ficamos lá, impotentes diante dele, porque não tínhamos o soro antiofídico em nossa farmácia”,

– descreve a médica brasileira Rachel Esteves Soeiro que atua na Ningara.

SIM, a falta de estrutura mínima para um atendimento. Mas, o que mais chama atenção são justamente as diferenças. A médica estava lá. Pela força de seu depoimento podemos perceber que ela estava envolvida. Isso é o que chamamos de atendimento humanizado. E essa forma de tratamento é a que tem feito falta, aliás, muita falta, ao povo brasileiro.

É justamente a falta de sensibilidade para os que aguardam em filas, a falta do olho no olho durante o atendimento, a fala fria ao receitar exames que provavelmente só serão vistos quando a dor passar além da ausência daquele velho médico, que conhecia tão bem a família desde o nascimento dos “meninos” a morte do patriarca, que são fruto maior das reclamações que podemos escutar em uma visita ao consultório.

Em nosso país com vagas abertas em tantos locais de nosso território, com oferecimento de salários consideráveis que jamais são ocupadas pelos nossos… Por que não abrir espaço para esse outro tipo de médico? Capaz de largar seu próprio país para se dedicar de corpo, alma e coração a profissão que um dia escolheram.

Ser médico é bem mais que uma profissão. E quem a escolheu deve, com todo certeza, ter consciência disso. Ou não?

Será que nossos médicos, esqueceram de que optaram por uma profissão da qual a sociedade espera TUDO? Esqueceram que em juramento prometem que em

“(…)toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário (…)“?

(juramento de Hipócrates)

Esqueceram que no fim, seu oficio representa vida?

Deixem-nos abrir a porta a uma esperança. A esperança de que nas mais distantes vilas desse vasto território haverá uma mão para socorrer. Deixem que venham aqueles que podem ensinar e também aprender. A experiência há de ser gratificante.

“É muito interessante porque os enfermeiros sempre fazem perguntas sobre os pacientes e acabamos tendo boas discussões clínicas, que, em minha opinião, é a melhor forma de aprender, porque assim eles se lembrarão do caso e o associarão à teoria (…) No mês passado, recebemos dois médicos congoleses recém-formados para estagiarem conosco(…) “ensinar” os médicos, eles são interessados e gostam de discutir”, descreve Soeiro.

Enquanto isso, médicos brasileiros prestam-se o papel de ofender médicos cubanos que chegam ao Ceará. A sensação do povo é de vergonha. Justamente os médicos cubanos, conhecidos por viajar por tantos países levando essa mão que tanto desejamos? Donos de uma fama considerável pela dedicação a medicina da família e ao atendimento básico preventivo. Por quê?

A explicação estaria em um estranho nacionalismo do nosso “corpo médico”? Não. Costumamos abrir as portas para receber sem preconceitos, médicos advindos de tantos outros países, alegramo-nos com palestras e com o conhecimento de novas técnicas desenvolvidas. Sem falar que algumas vezes fazemos isso com estrangeiros nem tão especialistas assim?

Além do mais, se fosse nacionalismo de verdade, nossos doutores não se incomodariam de seguir curando nosso povo em todo canto da nação.

Seria então puro protecionismo profissional? Mas que proteção é essa de um emprego que não se quer ocupar?

Quem sabe, poderíamos dizer que é uma chance de chamar a atenção para as condições de saúde do Brasil? Mas que tipo de manifestação é essa que agride iguais? E por que se silenciam nossos médicos quando gritam pacientes em macas de hospital? E por que não denunciam a vergonha dos planos de saúde, sempre tão caros e ineficientes?

Ou será que tudo isso é por força dessa grande indústria que se alimenta de todo mal?

Desculpe-me Doutor, mas a saúde do Brasil vai mal, muito mal. E a pior de nossas doenças é justamente essa que vocês desenvolvem os sintomas: xenofobia, preconceito e falta de capacidade de entender aonde é que está doendo mais.

Impropérios

( Publicação de 24 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Diante de mais uma afirmação bombástica do ex-ministro Ciro Gomes, a imprensa cearense se alimenta de uma série de noticias que dão conta do troca-troca de desaforos entre personalidades da vida pública cearense.

De um lado está a figura do irmão do Governador, do outro o vereador e líder sindical, Capitão Wagner.

Na defesa de Ciro, a Assembleia Legislativa, que possuí larga base de apoio ao governo. Na defesa do Capitão, a Câmara Municipal, casa onde o apoio ao recentemente eleito Prefeito Roberto Cláudio (que teve apoio do governador) é um pouco mais dividida.

Estão na lista das afirmações inesquecíveis do ex-ministro a afirmação de que “a minha companheira tem um papel fundamental. Ela dorme comigo” ( sobre sua então mulher, Patrícia Pilar durante a campanha para presidente), a declaração de que polícias e bombeiros grevistas eram um “conchavo de marginais fardados com marginais da quadrilha da droga que colocou toda a sociedade refém”, a de que o PMDB é “ajuntamento de assaltantes” ( programa É Notícia da RedeTV!) e a de que “Lula está navegando na maionese. Ele está se sentindo o Todo-Poderoso e acha que vai batizar Dilma presidente da República”.

Sobre o Capitão Wagner, Ciro disparou: “Tem uma questão grave. Você tem uma polícia, que a maioria é gente séria e trabalhadora, só que é orientada por uma milícia. Coisa ruim mesmo, coisa pesada, conexões com o narcotráfico, e o chefe é o capitão Wagner. E eu vou denunciar isso, nós vamos enfrentar”.

A reposta do Capitão foi a de que Ciro estaria tentando desviar o foco do debate sobre problemas da segurança pública no Ceará.

Feito o processo acusatório, podemos dizer que o ex-ministro aprendeu bem os caminhos da espetacularização da política. E a pergunta que aparentemente não foi feita, talvez seja a mais importante delas: Alguma prova?

Mas a mídia, ainda sedenta de vendas na era pós Collor, abre espaço a simples troca de informações baseada no eu te acuso e você que se defenda.

Pode até ser que o Capitão Wagner não seja um santo. Mas, o que não poderia jamais acontecer em um estado democrático de direito é a mídia seguir pautando dessa forma.

Em um ponto especifico, o Capitão está com toda razão. A partir da troca de acusações deixou-se de discutir a violência crescente na cidade.

A mesma mídia que por toda uma semana ressaltou o número crescente de assassinatos, agora dá espaço para os impropérios.

E, diga-se de passagem, quase não discutiu com a sociedade, o convite feito pelo prefeito Roberto Cláudio a Moroni Torgan para auxiliar na construção de um plano de segurança para Fortaleza.

Sim, o Moroni, ex- secretário de segurança de Tasso Jereissati. O mesmo que estabeleceu o Sistema Integrado de Defesa Social (Sindes) que como sabemos começou a ruir após o Caso França em 1997, e de quem o próprio Tasso em 2004 (entrevista para o jornal O Povo) afirmou: “O Moroni sabe o que eu penso dele. A turma que está atrás do Moroni não tem condições de estar na Prefeitura de Fortaleza. É uma turma da pesada, da repressão, que compactuou com os piores momentos da Polícia”. ( uma outra troca de impropérios).

Analfabetismo, “iletramento” e questões eleitorais

(Publicação de 13 de maio de 2013- migrada do blogspot)

Mexe aqui e ali, acabei encontrando alguns textos da época de faculdade. É curioso ver como construímos um pensamento. Este aqui foi feito para a especialização da UFC, disciplina da Professora Marcia Vidal.

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quadro um

Departamento de comunicação social/Universidade Federal do Ceará – UFC

Especialização em teoria da comunicação e da imagem

Disciplina: leituras transdiciplinares em comunicação

Professor(a): Márcia Vidal Nunes

Aluna: Marina Valente Marins Camara – turma C

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– Analfabetismo, “iletramento” e questões eleitorais –

Tabela 4 – Taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou    mais – 1996/2001
Unidade Geográfica Ano
1996                       1998                                    2001
Brasil

Norte

Nordeste

Sudeste

Sul

Centro-Oeste

14,7                          13,8                                    12,4

12,4                          12,6                                    11,2

28,7                           27,5                                   24,3

8,7                               8,1                                     7,5

8,9                               8,1                                     7,1

11,6                             11,1                                   10,2

Fonte: IBGE, Pnads de 1996, 1998 e 2001.

O presente trabalho tem o intuito de analisar o analfabetismo e o não “letramento” (Uma questão social, fruto do processo contínuo de exclusão) e seu desenvolvimento na construção da política e das campanhas eleitorais.

A escolha do objeto trás uma série de possíveis reflexões dado o número significativo de analfabetos no país, e sua dimensão geográfica, como podemos perceber no seguinte gráfico[1]:

A  parcela da população que desconhece o código escrito é considerável, e se considerarmos a alfabetização além do conhecimento do código, ou seja, se incluíssemos nas estatísticas pessoas iletradas ( que conhecem o código, mas não o compreendem) os números seriam ainda mais alarmantes.

E o que significaria letramento? Em 1998, Magda Soares[2],  investigou que o termo vinha do inglês: literacy. E que a partir da década de 80 começou a ser utilizada no Brasil. Soares definiu então que:

“(…) o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita”.

O que chamamos de letramento é, portanto, uma capacidade de compreender e interpretar o mundo. Patativa do Assaré, por exemplo, era como muitos ressaltam, semianalfabeto, pois não compreendia com precisão os códigos linguísticos da norma culta, mas ao mesmo tempo era letrado, pois conseguia compreender o mundo a sua volta de tal forma que os traduzia em poesias perfeitas. Então é possível ser analfabeto e ser letrado, mas também é possível ser alfabetizado e não letrado. Munir Fasher[3], ao teorizar sobre as campanhas de alfabetização na palestina no dá a seguinte contribuição ao falar de sua mãe:

“No sentido descrito, sinto que minha mãe “analfabeta” era mais livre do que eu. Ela trilhou o sue caminho na vida a palmilhá-lo, e não por meio de treinamento nem pelo ensino de conhecimento fragmentado, isolado da vida. Ela aprendeu, em vez de ser ensinada. Aprendeu observando, fazendo, contando e produzindo. Criou seu próprio e construiu sua compreensão. Uma grande diferença entre nós era que, quando eu precisava descobrir o significado de uma palavra, deveria procurá-lo no dicionário, na enciclopédia ou em algum outro livro. Ela, ao contrário, procurava os significados com base na sua experiência de vida.

É importante ressaltar que no caso especifico, ela também moldava interpretações de mundo que variavam com suas vivencias, tornando como descreve o autor em espectadora, desta forma nada impede que em determinados momentos esteja envolta num misto de  necessidade e desejo, resultante da experimentação de um mundo concreto.

O grande problema é que fica fácil quantificar o numero de analfabetos de um país através de dados estatísticos, mas quantificar os iletrados seria possível? No Brasil, muitos dados semelhantes foram gerados como, por exemplo, a tabela abaixo que trás dados de analfabetismo funcional[4]:

quadrk

Ou ainda[5]:

qaudrodosikl

Mas tais dados, não refletem o perfil do letramento, haja vista que existem aqueles que completaram seus estudos, mas não conseguem de forma alguma construir um pensamento crítico ou uma leitura maior de mundo, é o caso do exemplo a seguir[6]:

“Candidaturas são impugnadas após teste de alfabetização

O juiz eleitoral de Itapetininga, Jairo Sampaio Incane Filho, 38, impugnou 20 dos 80 candidatos a prefeito e vereador das cidades de Itapetininga, Sarapuí e Alambari, na região de Sorocaba (87 km a oeste de São Paulo).

A impugnação foi motivada pelo fato de os candidatos terem sido reprovados em um teste de alfabetização realizado pelo juiz, no Fórum de Itapetininga.

Incane Filho disse que fez o texto com base na exigência contida na Lei Complementar nº 64/90, de 1992, do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que proíbe analfabetos de serem candidatos a cargos eletivos.

O juiz afirmou que convocou os 80 candidatos que disseram ter o 1º grau completo e demonstraram dificuldades no preenchimento dos documentos para o registro de suas candidaturas.

Os testes com os candidatos foram feitos individualmente. Seus nomes são mantidos em sigilo. “Pedi a todos que lessem e interpretassem um texto de um jornal infantil. Em seguida, pedi que cada um redigisse um texto expondo sua lógica”, disse.

Segundo Incane Filho, erros gramaticais não foram levados em conta. “Apenas observei se o candidato tem condições de entender um texto, pois uma vez eleito, ele vai ter de trabalhar com leis e documentos A assessoria de imprensa do TRE informou que o tribunal transmitiu uma recomendação aos juízes para que “em caso de dúvida”, façam “um teste de alfabetização” nos candidatos.Baseado numa lei que “proíbe analfabetos de serem candidatos a cargos eletivos”, o juiz submeteu candidatos a prefeito e a vereador a “um teste de alfabetização”.

O interessante, é que o TRE revogou a decisão do juiz entendendo que os candidatos eram alfabetizados. Na verdade eles o eram, mas também eram iletrados.

Se, estamos falando de uma parcela da população que é analfabeta e, portanto desconhece os códigos e de uma parcela da população não letrada e que, portanto desconhece os significados, estamos falando de um grave problema na relação dos destes com o alfabetismo político e a política no país. Essa relação, portanto, modifica o fazer político e a propaganda eleitoral.

Para aqueles que são analfabetos e iletrados, podemos considerar as vantagens e desvantagens de se andar no mundo moderno. O não conhecimento do código e os poucos rudimentos de letramento que grande parcela da população possuí, expõe questões como: O que a propaganda e a comunicação de massas pensa essa parcela? Como são as estratégias pensadas? Como lidar com este mercado?

O apelo às questões concretas é exposto no discurso, para que este tenha eficácia. O vivido tem supremacia ao teórico, pois antes de idealizar regras e procurar referências na teoria, busca – se no exemplo e na vivência individual para se construir a vida e um discurso.

Sabendo disso temos inúmeros exemplos de  políticos que se utilizam deste  aspecto para a construção de suas campanhas, um exemplo relatado por  Julia Miranda[7] foi a campanha de governador do Piauí (em 1994 e a reeleição em 1998) de Francisco de Assis Moraes Souza o “Mão Santa”.

O candidato percebeu o cansaço da população dos políticos que vinham de fora como Hugo Napoleão, natural do Rio de Janeiro e outros que vinham do Maranhão. Fez então sua Campanha pautada no sentimento territorial de ser natural  do Piauí.  Um dos discursos construídos na Campanha foi: “um homem e uma mulher se amaram no Piauí, no casaram no Piauí, constituíram uma família cristã no Piauí”, utilizando seu casamento como parte das mensagens de campanha em clara oposição ao outro candidato cuja trajetória familiar foi fora do estado. A estratégia deu certo, mas, não serviu para um esclarecimento político dos eleitores, que votaram pelo sentimento e não pelo esclarecimento político.

A comunidade ou municipalidade é uma determinante na construção da identidade, não no sentido da Polis, mas o conhecimento das tradições políticas, trajetórias dos grupos e fenômenos políticos. A mitologia eleitoral é um terreno fértil para a construção do imaginário e há casos onde a definição política ocorre desde muito cedo nas cidades do nordeste.

Numa campanha eleitoral, então são expostas questões concretas que são obras e propostas de campanha priorizando o emprego e soluções individualizadas para cada eleitor e questões subjetivas como honra e a ‘ética’ do candidato (sua religião, família, sexualidade e outras  características que tenham afinidade com o eleitor).

Lidamos então com a construção de mitos. A imagem do candidato reflete uma perfeição não necessariamente correspondente a uma realidade, e que também não significa uma capacidade ética, política e administrativa em relação às necessidades de dada parcela da população, mas que suprem à necessidade da imagem da qual desejaríamos ver refletida em um espelho. Uma imagem normalmente inatingível.

É comum pensarmos que esta parcela da população está a reboque dos setores mais escolarizados ou das elites locais, como fruto da influência do voto de opinião ou da subserviência aos senhores locais. Uma segunda reflexão é que esta seria influenciada pelo movimento de opiniões que seriam advindos da igreja, da insegurança, do conservadorismo ou dos movimentos sociais. De uma forma ou de outra esta camada estaria sendo levada não por vontade própria, mas por vontade dos Alfabetizados.

Porém, nas eleições de 2006 tivemos um fenômeno que a mídia chamou de “fim do efeito pedra no lago”[8] : às camadas populares votaram independentemente das camadas mais escolarizadas da população, a mudança foi fruto da identidade que o presidente Lula criou com esta faixa da população a partir da própria gênese do presidente, o seu comportamento, o vocabulário popular que este usa.

A eficiência dos programas sociais criou um fim na dependência entre eleitores e as oligarquias locais a partir da construção da impessoalidade no serviço público. Os seus programas sociais ocasionados pela informatização, do acesso aos benefícios de credito, a consolidação do serviço público que limitou o  favorecimento das elites que agora usam da terceirização para colocar os ‘seus’ e por último o desgaste das elites tradicionais por conta do receituário neoliberal.

Em síntese este setor que votava de acordo com a vontade de outros, viu atuar de maneira independente nas eleições de 2006, em parte motivado pelos motivos expostos anteriormente, mas, isso não significou de uma escolha eleitoral pautada na construção de um imaginário emocional, temos então neste caso a soma de dois processos que geraram um fato histórico na política brasileira.

Referências Bibliográficas

Política no Brasil; visões de antropólogos. Org. Moacyr Palmeira e César barreira.Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2006.

SOARES Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998.

Revista Brasileira de Educação: n◦ 24,2007- Como Erradicar o Analfabetismo sem erradicar os Analfabetos?, Munir Fasher.

Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

Folha de S.Paulo, São Paulo,19 de julho de 1996

[1] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[2] SOARES Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Autêntica, 1998.

[3] Revista Brasileira de Educação: n◦ 24,2007- Como Erradicar o Analfabetismo sem erradicar os Analfabetos?, Munir Fasher.

[4] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[5] Mapa do analfabetismo no Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), 2001.

[6] Folha de S.Paulo, São Paulo,19 de julho de 1996

[7] Política no Brasil; visões de antropólogos. Org. Moacyr Palmeira e César barreira.Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2006.

[8]